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Mês da mulher: confira entrevista com Juliana Pontes, secretária-geral no TCU

No ano da trigésima edição do programa de fiscalização Fiscobras, a dirigente fala do período em que esteve à frente da unidade responsável pela auditoria de obras, setor historicamente dominado por homens

Por Secom

juliana pontes

Os 30 anos do Fiscobras - programa anual de auditorias do TCU sobre empreendimentos de infraestrutura - são um período de celebração do ciclo de fiscalizações de grandes obras. Com o objetivo de identificar erros, coibir desvios e irregularidades, o trabalho aprimora contratos de execução e aperfeiçoa a administração pública. Nesse contexto, o Tribunal preparou ações para mostrar como o Fiscobras é produzido e por quem é realizado. Por trás dos resultados apresentados ao longo de três décadas, há equipes que se esforçam para entregar o melhor trabalho possível.

Em março, mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, trouxemos uma entrevista com a secretária-geral de controle externo do TCU, Juliana Pontes de Moraes. A dirigente chegou ao Tribunal em 2005, como auditora de obras, já sabendo que o setor ofereceria desafios a ela. Na verdade, desde sua formação na universidade, em Engenharia Civil, Juliana soube que enfrentaria tais situações em sua carreira, justamente por atuar em um campo ainda predominantemente masculino.

Além de trabalhar diretamente como auditora de obras desde 2005, Juliana Pontes esteve à frente da Secretaria de Fiscalização de Obras, que tinha a responsabilidade de fiscalizar obras hídricas, ferroviárias e portuárias.

No período em que chefiou a unidade, coordenou diretamente equipes que fizeram trabalhos importantes para as edições do Fiscobras de 2011 a 2014. Em uma breve entrevista, a titular da Segecex falou acerca dessa fase, quais desafios viveu e como se deu a evolução da cultura do TCU em relação a lideranças femininas.

Nos anos em que esteve à frente da Secretaria de Fiscalização de Obras, como estava o cenário do país? Tinha algum grande desafio naquele momento? Quais deles exigiram mais energia do TCU?

O grande desafio daquele momento eram as obras ferroviárias. O Brasil precisava de ferrovias, como ainda precisa hoje. E tinha um grande movimento, além do PAC, para que o país entregasse obras ferroviárias. Então, foram muitas fiscalizações no setor.

O outro grande projeto da época era a transposição do Rio São Francisco, na verdade, o projeto de integração do Rio São Francisco. Atuamos muito também, por ser um empreendimento fundamental para o país.

O setor de fiscalização de obras, em geral, é ambiente com maior presença masculina. Quais são os principais desafios para uma mulher que coordena equipes nesse espaço? Acredita que existem barreiras que vão além dos desafios da função de auditoria?

Entrei no Tribunal já na auditoria de obras, em 2005. E dali fui me familiarizando com o trabalho e, em 2011, virei, de fato, a titular de uma unidade de auditoria que fiscaliza obras. Certamente, tive muitos desafios a vencer. Eles começam no momento em que uma mulher assume a função em unidade que se debruça sobre grandes obras. Se olharmos hoje, a secretaria que cuida da auditoria de obras de infraestrutura ainda tem um número reduzido de mulheres porque, de fato, é muito mais desafiador ter uma mulher fiscalizando obra do que vê-la em outra área. Eu não estou dizendo que é mais difícil ou mais complexo, chamo de desafiador mesmo, porque há nuances na auditoria de obras que não se verificam em outras fiscalizações. Por exemplo, muitas vezes é preciso caminhar por um trecho de canal. É uma outra realidade. Às vezes eu tinha que chegar de helicóptero, outras vezes chegava em um ônibus que o próprio auditado levava ou em um carro que a gente conseguia na localidade, passando por estradas em lugares ermos, que não tem infraestrutura por ser longe da capital. A gente passava uma ou duas semanas fora e, para quem é mãe, duas semanas longe dos filhos não é fácil.

Para quem cuida de uma unidade de auditoria, que foi a tarefa a que me propus a partir de 2011, quando virei de fato a dirigente, também é um desafio, porque a área de obras é dominada pelos homens. Mas eu vinha da formação de engenheira e já tinha comigo esse discernimento de que, em alguns momentos, encontraria dificuldades. As pessoas olham para você de forma diferente, as dificuldades que uma mulher tem em um ambiente mais masculino são maiores, e isso a gente tem que aprender a lidar, não tem jeito.

Você acredita que a diversidade de gênero nesse setor de obras traz novas perspectivas ou abordagens para o trabalho de fiscalização?

Eu acho que isso não é só na área de obras. Falando especificamente sobre essa questão da diversidade, no que se refere a gênero, essa diferença entre o feminino e o masculino, a mulher, até na área de obras, tem um olhar que às vezes o homem não tem. Esse olhar é a minúcia, a mulher é mais detalhista, é mais criativa, traz soluções que chegam a um senso comum com mais empatia, ela consegue olhar mais o outro. Isso não sou eu que estou dizendo, são os estudos. O próprio Fórum Econômico Mundial cita a criatividade como uma das características mais procuradas nos profissionais de hoje. Muitas vezes se busca a inovação, e isso está arraigado nos dois gêneros, mas a mulher, para a solução de problemas, é dotada de estrutura cerebral mais acurada que a do homem.

E a gente carrega também maior espírito de colaboração, que é da natureza feminina, de construir coletivamente, de dialogar. Não estou dizendo aqui que isso não exista entre os homens, mas há uma maior predisposição feminina a ambientes colaborativos e construções participativas.

Desde sua entrada no TCU, em 2005, você percebeu alguma mudança significativa na cultura do TCU em relação a lideranças femininas?

O mundo avança e a Casa avança junto. O Tribunal tem isso de bom: ele está sempre olhando para fora e trazendo o olhar do mundo aqui para dentro. E não é só nessa questão de igualdade de gênero. Claro que as mesmas dificuldades que o mundo enfrenta lá fora, o Tribunal também as enfrenta em seus domínios, ele é um espelho do que acontece na sociedade. E é muito interessante como o TCU sempre busca ser o melhor em tudo que faz.

Então, nesse momento, o TCU também busca, por meio do selo PNUD de Igualdade de Gênero, esse reconhecimento em implantar práticas de igualdade de gênero que nos tragam essa sensação de igualdade entre homens e mulheres. Então é algo pelo qual a gente luta todo dia, uma coisa a que a Casa está atenta. Antes não tínhamos programas desse tipo, mas atualmente temos.

Existe aqui também um programa instituído para combater o assédio, além de uma série de eventos de liderança, de empoderamento feminino. Eu mesma participo de um atualmente. Então há toda uma energia, há todo um esforço voltado para que a gente, de fato, ande no movimento do mundo.

O Fiscobras terá formato novo, com uma proposta de se constituir como documento que não aponta apenas as obras problemáticas, mas também mostra aquelas de grande interesse social e que merecem atenção maior por parte do governo. E isso em um período no qual se tem uma mulher à frente da Secretaria de Controle Externo de Infraestrutura. Acredita que a busca pela inovação é uma das vantagens que a diversidade de gênero traz para o Tribunal?

O foco do Tribunal hoje é fazer entregas, gerar valor público para a sociedade. Quando é que se gera valor público para a sociedade? Quando a sociedade, de fato, sente que o trabalho de certo ministério, do próprio TCU, ou de um outro órgão público, melhorou sua vida. Nem que seja um pouquinho, mas que se perceba alguma transformação. Notar que o Tribunal passou aqui, viu isso e conseguiu mudar é fundamental. Conseguir mudar a realidade, buscar melhores serviços públicos, entregas mais significativas, esse é o foco do TCU hoje em dia.

O que acontece é que historicamente, por anos, fizemos questões de auditoria que focavam em encontrar irregularidades. Hoje temos como intuito encontrar soluções para entregas de valor para a sociedade. Contudo, quando se verifica o cometimento de irregularidade, de fraude ou desvio, é nossa responsabilidade usar os instrumentos que temos, por lei, pelo regimento interno, para inclusive propor uma audiência, chegar a uma punição, a uma multa, para pedir a devolução de recursos. O foco hoje é geração de valor público para entregas à sociedade. E nesse quesito a presença feminina é muito importante. O olhar feminino, de fato, é muito importante.

Mas isso é algo que, na minha visão, pode ser feito tanto por homens quanto por mulheres. A diferença é que, como eu disse, esse senso de colaboração, de inovação e de construção coletiva com vários atores na solução de problemas é muito mais desenvolvido, por vezes, na mulher. Ela tem maior habilidade de trazer pessoas para o debate, de congregar pessoas diversas para debater o mesmo tema.

Então, eu acho que a presença da Keyla Boaventura (secretária de controle externo de infraestrutura), nesse momento, é fundamental para que a gente possa construir uma transformação cultural, que é fiscalizar para gerar valor público.

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